segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A manipulação jornalística nos dias de hoje

A notícia antes de chegar ao público precisa passar por vários processos que envolvem a sua produção, que vai desde a apuração dos fatos até o momento em que o receptor toma conhecimento deles.

É nesse sentido que o falseamento e a supressão da informação se transformam em mecanismos editoriais através dos quais jornais selecionam o que deve ou não ser publicado.

A “manipulação jornalística” (MARCONDES FILHO, 1979) executa um tratamento para transformar o fato em algo noticiável, para que este se torne objetivo aos olhos do leitor, de acordo com a ideologização constituída pela própria maneira de o jornalista organizar os fatos, por vezes, de maneira inconsciente, através da autocensura, outras conscientemente.

Os valores, portanto, de cada jornalista, orientados sob uma lógica do sistema econômico vigente, estão associados aos interesses de sua classe social de origem e a uma visão mercadológica da informação que passam a serem reproduzidos pelos veículos de comunicação para a opinião pública.

Associadas à credibilidade que o jornalismo tem para o público, as notícias ganham caráter de verdades incontestáveis, em relação às quais o público apenas exerce a posição de consumidor passivo. Ciro Marcondes Filho também fala da fragmentação da realidade (1979), como maneira geral de disposição do mundo na perspectiva da sociedade burguesa, através de notícias com informações fragmentadas, diluídas, difusas, que apresentam o contexto social, a realidade, sem nenhum nexo.

Essa situação de fragmentação acontece por conta do que é chamado por Marx de alienação do trabalho, que trata da ruptura entre o homem e seu produto do trabalho, que acontece na linha de produção quando o trabalhador é desenvolvido apenas em sua função como se este fosse uma peça de todo o maquinário produtor.

O trabalhador então se reencontraria no produto final através de seu distanciamento do mesmo, que passou a adquirir vida própria. O que é chamado de fetichismo de mercadoria (MARX, 1971) é reconhecido no consumismo.

As notícias são, portanto, associadas facilmente a esse tipo de fragmentação. Pois é de interesse para a classe social dominante que haja um controle sobre o que o leitor do jornalismo impresso precisa saber sobre os fatos. Já que o conhecimento sobre a realidade não deve atrapalhar o modelo de sistema econômico, assim como toda forma de organização do Estado vigente, constituído pelos interesses do sistema econômico da sociedade capitalista.

A hierarquização dos fatos é construída para que estes correspondam ao que é mais “objetivo”. Através da separação da notícia é destacado o que mais deve chamar a atenção do leitor em detrimento do que é, por vezes, o mais importante. É esta a lógica do mercado do jornalismo. O que não interessa é posto de lado como a origem dos fatos (MARCONDES FILHO, Ciro, O Capital da Notícia, pg. 41, 1979).

Nesse sentido, o receptor da mensagem não pode confirmar a veracidade do que lhe é narrado por conta da manipulação produzida sob o viés de pensamento presente nos veículos jornalísticos.

É comum também a própria falta de interesse da opinião pública sobre o conhecimento de todo o processo produtivo da notícia, sobre a própria padronização dos valores que interessem aos grupos dominantes, e como se dá a pressão dessas regras sobre a maneira do público pensar e decidir.

Para Antonio Gramsci, em seu livro Concepção dialética da História, apesar do homem ativo atuar praticamente, este ainda não possui uma clara consciência teórica desta sua ação, já que este conhecimento do mundo é obtido na medida que este indivíduo o transforma.

A compreensão crítica sobre si mesmo é obtida através de uma luta de hegemonias políticas, assim, pode-se compreender que no indivíduo, conhecimento é poder. O que se traduz no fortalecimento de sua consciência crítica e no poder de, libertando-se da alienação, ser capaz de interferir nos rumos da sociedade. Foucault indaga: “Para que serve o conhecimento se não para nos revolucionarmos?”.

Através da globalização, o que é local passa a fazer parte da esfera internacional e a informação ultrapassa as fronteiras geográficas e vai para a tela do computador, sendo transmitida também via satélites em tempo real, para qualquer parte do mundo.

Segundo Milton Santos, nunca houve antes essa possibilidade oferecida pela técnica à nossa geração de se tomar consciência do acontecer do outro (SANTOS, Milton, Por uma outra globalização, 2000a). E é nesse sentido que essas relações vêm sendo reproduzidas por todo o mundo globalizado para os vários indivíduos se transformarem em consumidores. Tanto de bens simbólicos, quanto de bens materiais específicos.

Milton Santos também afirma que o entendimento do que é o mundo passa pelo consumo e pela competitividade, e que esse consumismo e essa competitividade levam à atrofia da personalidade, do conhecimento dos indivíduos e ocasiona a ausência do homem como cidadão.

Esse tipo de ausência sempre foi comum no Brasil até porque, segundo o autor, as classes privilegiadas nunca quiseram assumir essa função enquanto que os pobres jamais puderam (SANTOS, Milton, Por uma outra globalização, 2000b).

Como efeito da globalização, as relações interpessoais são afetadas de todas as formas na sociedade contemporânea brasileira. Os brasileiros vêm gradativamente se interessando pelos costumes estrangeiros. Até na política, questões como o neoliberalismo, os ideários do anarquismo e do comunismo no início do século XX, a política de cotas em universidades públicas e particulares, foram transpostas de maneira mecânica, muitas das vezes.

Esta característica do brasileiro está intimamente ligada novamente ao histórico hierarquizador da nossa sociedade, na qual seus formadores de opinião sempre foram a nobreza de Portugal e, em nosso caso, não houve nenhum movimento revolucionário real que rompesse com essa estrutura de subordinação aos interesses estrangeiros desde a época das capitanias hereditárias. No quadro da globalização, a situação ainda fica mais complexa.

Através da mídia impressa brasileira, os jornais O Globo e o Jornal do Brasil não apresentam à opinião pública nenhuma crítica que represente uma reflexão mais profunda e sob um aspecto geral, assim como também não a incita ao debate.

Na cobertura jornalística brasileira sobre a crise política do governo Lula, a Revista Veja tem procurado sempre se apoiar com base do denuncismo em suas matérias. Segundo editorial do observatório da imprensa, publicado por Alberto Dines, em 16/5/2006, a Veja pretendia provar que o presidente Lula e alguns de seus colaboradores possuíam contas em paraísos fiscais, mas acabou envolvida numa das maiores fraudes jornalísticas dos últimos tempos.

Quando não se tem certeza de uma informação, não se publica esta informação até que seja confirmada cabalmente. E se não for confirmada, fica na gaveta ou vai para a cesta do lixo.

Como constatamos a ideologia capitalista da sociedade brasileira está impregnada de valores estrangeiros, cada vez mais inclusive, devido aos avanços das novas tecnologias da comunicação, como o computador e a aldeia global com a difusão de informações em tempo real através da Internet, anulando as fronteiras mundiais.

A destruição das fronteiras nacionais pela globalização, a redução do poder das instituições estatais sobre os serviços de educação, transportes, saúde, etc, além do avanço dessas novas tecnologias virtuais criam muitas dificuldades aos movimentos pela emancipação popular que, sem estrutura o suficiente, não têm como competir com as grandes empresas jornalísticas formadoras de opinião e que hegemonizam a ideologia capitalista, ao suprimirem as informações que assustam os poderosos do sistema.

Célio Azevedo é Jornalista.

Texto original de 2005, de sua produção monográfica.
 

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