domingo, 9 de janeiro de 2011

As Perspectivas para o Jornalismo no Capitalismo de Estado

O jornalismo está diretamente ligado ao sistema econômico vigente e a sua própria natureza de formação que é capitalista, como afirma Ciro Marcondes Filho (1989), em seu livro O Capital da Notícia. Segundo o autor, uma sociedade não estruturada sob as bases de exploração do lucro e do trabalho levaria a um jornalismo menos alienador e manipulador.

A utopia se processa no sentido de ignorar que não se pode conceber a existência do jornalismo em uma sociedade mais justa, igualitária sem que se politize a opinião pública, para que esta não fique em constante estado de aceitação, e sim, ganhe consciência crítica.

A imprensa funciona com todos os preceitos mercadológicos, dos quais as elites precisam para se manter ideologicamente como classe hegemônica, no sentido gramsciano, incentivando o consumo e a alienação com relação a fatos políticos.

Os fatos são apresentados ao público para que este seja desviado, então, da realidade. Um bom exemplo disso pode ser o fato de a TV Globo, em plena ditadura militar, ter colocado em suas principais programações diárias, as telenovelas nos anos 1950, para que, além de moldar a população ao consumo, pudesse também desviar os olhos da ditadura militar e suas atrocidades. Assim como acontece em jornais do sistema Globo que não chamam à população a participar dos debates sobre os Atos institucionais. É célebre a relação entre esta empresa e o regime militar e as benesses delas resultantes para os dois lados.

A formação de uma redação, por exemplo, pode ser caracterizada por uma relação a mais capitalista possível, no que condiz a divisão do trabalho, em uma estrutura hierárquica, onde que vale é a palavra do editor do jornal e que fala pelo dono do veículo e de seus anunciantes dentro do mercado.

Os repórteres, muitas vezes, questionam pautas, foco de matérias, a manipulação discursiva, mas não têm poder para eximi-los da prática profissional que se dá no interior das empresas jornalísticas.

É cada vez mais comum no mundo de hoje a não separação do departamento comercial da produção das notícias nas redações. O que ocorre é a submissão dos valores ético-morais a valores regidos pelo interesse do lucro.
Os órgãos noticiosos oficiais do Partido Comunista da União Soviética e o Neues Deutschland, da antiga Alemanha Oriental, também manipulavam. Em qualquer perspectiva político-ideológica encontram-se interesses explícitos ou não, na forma de se tratar a matéria, no enfoque, na valorização dos componentes da notícia, na perspectiva subjetiva de se aproveitar o fato, como diz Ciro Marcondes Filho (1989, pg. 33).
Portanto, os jornais nesses países socialistas eram também sensacionalistas em sentido amplo e necessariamente manipulativos na conceituação de que a possibilidade efetiva de um jornalismo não manipulativo, uma vez rompidas as determinações mercadológicas de produção de notícias, é totalmente utópicas.

No início do século XX, o capitalismo introduziu o taylorismo-fordismo nas empresas, que foram aplicados pelos grandes industriais americanos. De acordo com Nilson Lage, A divisão em funções na redação decorreu de uma imposição da transformação do jornal em empresa (LAGE, Ideologia e Técnica da Notícia, 1987). Esta prática tinha como objetivo principal aumentar o lucro obtido, além de barrar o avanço dos crescentes movimentos operários nos EUA.

A racionalização do fordismo era realizada padronizando funções, pagando apenas por peças produzidas, além de premiar os que mais produzissem. Situação na qual muitos operários perdiam interesse pelo movimento de mobilização política nos EUA. No caso do jornalismo, a divisão de funções garantia impessoalidade às matérias.

A primeira escola de comunicação foi criada por Robert Lee, em 1869, era a Washington College, era em Virgínia. Esta iniciativa promoveu a criação de cursos semelhantes em outras universidades pelo mundo. De acordo com o dicionário de jornalismo, a redação jornalística é o processo de construção da notícia na qual o texto final é escrito a partir dos dados obtidos na apuração ou reportagem. O profissional especializado neste processo é chamado de Redator.

Por exemplo, na época em que os aconteceu a Intentona Comunista 1935, muitos materiais acusados de propaganda ideológica a favor do comunismo foram apreendidos e numerosos comunistas foram de presos nas redações jornais, como no jornal Novos Rumos, de acordo com o sítio Jornal da Rede Alçar.

A imprensa promove também a idéia de que as redações tenham preferência em comunicólogos que não possuam qualquer vinculo político partidário, e por esse motivo, diversos militantes foram expulsos de suas redações por conta de suas concepções ideológicas de esquerda.

Nos veículos jornalísticos, os responsáveis pelas editorias são normalmente o redator-chefe ou a própria empresa. Este pode ter a função desde redator e crítico até a de revisor do jornal.

As editorias internacionais são responsáveis por difundir para a opinião pública os fatos noticiáveis que ocorrem no exterior, obtidos através das agências de notícias internacionais, que são organizações responsáveis por apurar fatos, diretamente das fontes, e repassá-los para os veículos jornalísticos.

Normalmente estas empresas funcionam por meio de escritórios em diversas cidades do mundo, normalmente em capitais, como a AFP, da França, e a Reuters, inglesa. Os EUA têm a Associated Express.

Os colaboradores, mais conhecidos como stringers, e os correspondentes atuam obtendo fatos em diversos países e repassam essas informações para suas respectivas centrais jornalísticas.

O Brasil possui correspondentes e colaboradores no exterior que atuam através do material jornalístico produzido pelas agências internacionais, mas não possui nenhuma agência internacional. O que faz com que as matérias difundidas pelos veículos da mídia brasileira, como por exemplo o jornal O Globo e o Jornal do Brasil apresentem visões tão parecidas quanto os veículos de diversos jornais do mundo, como o The New York Times, Le Monde, etc.

Segundo artigo publicado no sítio do Observatório da Imprensa, diversas agências de notícias estão ocupadas por profissionais sem preparo e por correspondentes inexperientes. Alberto Dines afirma que já faz tempo que as agências estão espremidas e subdimensionada. O autor ainda diz que o mundo sumiu dos nossos jornais e revistas justamente no auge da globalização.

João Batista de Abreu, em seu livro As Manobras da informação, faz uma análise sobre a imprensa na época da ditadura militar, em que os próprios militares, ao perceberem o caráter duradouro do termo golpe, passaram a caracterizar a tomada do poder do Brasil como Revolução. (ABREU, João Batista, As Manobras da informação, pg. 23, 2000a).

De acordo com o autor João Batista de Abreu, em seu livro As manobras da informação, com o tempo, a imprensa brasileira passou a caracterizar o termo subjetivo de tachar todo cidadão de terrorista que fosse se contrário ao sistema recém instalado (ABREU, João Batista, As Manobras da informação, pg. 23, 2000b).

Desde a sua fundação do jornal O Globo, este veículo teve grandes contribuições durante a ditadura militar a favor do governo, nas eleições de 1989 – com o apoio ao Collor, assim como na cobertura acerca do chamado “fim do socialismo”.

Para o veículo do O Globo, assim como para a maioria dos outros jornais da época, expressões como “império de mil anos havia ruído”, além do excesso da utilização do conceito “golpista” na tentativa de derrubar Gorbachev em agosto de 1991 , foram comuns até os dias de hoje.

Emir Sader afirma em artigo público no jornal Correio Brasiliense, que os grandes debates nacionais costumam se valer, como parâmetros decisivos, de argumentos tirados da situação de outros países. O Brasil acaba por sofrer o impacto das opiniões de veículos jornalísticos estrangeiros.

Emir Sader (2006) ainda diz que quanto maiores as tiragens dos jornais, piores são suas editoriais internacionais, já que os jornais buscam aumentar as vendas com os outros cadernos mais solicitados por um público que já é mal informado pela editoria internacional. Este público acaba por admitir qualquer opinião independente dos interesses dos países desenvolvidos, como EUA ou Reino Unido.

Os meios de comunicação no socialismo foram ao longo de muitos anos criticados por diversos setores, tanto pelos defensores do capitalismo como também por muitos progressistas e intelectuais de esquerda. É nesse sentido analisar a importância do conhecimento da imprensa no socialismo.

Segundo João Batista de Abreu, em seu livro, As Manobras da informação, desde o aparecimento dos primeiros jornais, os Avvisi, que foi nos séculos XIII e XIV na Alemanha, a imprensa segue aos interesses de um grupo ideológico, podendo ser hegemônico ou não, dependo do momento histórico (ABREU, João Batista, As Manobras da informação, pg. 21, 2000a).

Para João Batista, todas as pessoas possuem ideologia, e todas as palavras são impregnadas de valores ideológicos. Portanto, o texto, título, o entretítulo, a foto, a localização da matéria na página, as chamadas e a escolha da própria página compõem o discurso jornalístico. (ABREU, João Batista, As Manobras da informação, pg. 22, 2000b).

Abreu diz que cada item examinado isoladamente oferece uma visão fragmentada do contexto, o que compromete a unidade do discurso, no entanto, os fragmentos são reveladores quando assumem caráter emblemático, a palavra possui o menor fragmento do discurso jornalístico, muitas vezes, o mais revelador (ABREU, 2000). Por outras palavras, o jornal impresso está impregnado de sua ideologia que chega ao leitor através do discurso jornalístico. A sua editoria busca na ordenação das palavras a melhor maneira de passar a ideologia do veículo jornalístico.

Porém, é necessário compreender que a manipulação não envolve apenas a questão ideológica dos sistemas econômicos-políticos já citados (capitalistas e socialistas), mas também padrões de manipulação distintos como os que Perseu Abramo aponta, em seu texto Padrões de Manipulação na grande imprensa, em várias colocações sobre a manipulação dos veículos jornalísticos.

Perseu Abramo (1988) diz que a ocultação é o padrão que se apresenta pela ausência e a presença dos fatos reais na produção da imprensa . Essa ocultação é comum em veículos jornalísticos que tratam de matérias em momentos, em que se é necessário esconder alguns fatos, a fim de fazer com que a opinião pública não perceba a realidade, como, por exemplo, no caso em que na época da ditadura militar, muitos veículos divulgavam receitas para donas de casa ao invés de informações que pudessem incentivar o senso crítico da opinião pública. Era uma forma de denúncia à ocultação, neste caso imposta pelo governo, mas há ocultação deliberadamente imposta pelos próprios veículos.

O padrão de fragmentação diz que, ao se tratar a realidade, com suas estruturas e interconexões, todo real é estilhaçado, despedaçado e fragmentado em milhões de minúsculos fatos particularizados (ABRAMO, 1988). Assim, os fatos são hierarquizados em graus de importância, dada à linha editorial do veículo, criando uma nova realidade e distanciando o leitor da versão original. A descontextualização da informação ocorre como conseqüência da seleção dos fatos para apresentar o resultado final ao leitor.

Há também o padrão de Inversão, quando depois de fragmentado o fato, os seus pedaços particulares, e fora do contexto, são reordenados, com a troca de lugares e da importância destes. O fato está fragmentado em várias partes e é reconstruído com base na troca de lugares, na substituição de umas por outras, e prossegue na destruição do real e na criação de uma nova realidade. (ABRAMO, 1988).

As principais formas de inversão são: a inversão da relevância dos aspectos, a inversão da forma pelo conteúdo, a inversão da versão pelo fato e a inversão da opinião pela informação.

Perseu Abramo afirma que na inversão da forma da relevância dos aspectos, o mais importante é tratado como segundo plano, a complexidade é trocada pela simplicidade, de fácil entendimento e o fato particular passa a ser tratado como geral.

A inversão da forma pelo conteúdo é assim caracterizada: o texto passa a ser mais importante que o fato reproduzido pelo mesmo. (ABRAMO, 1988). O visual, o apelativo sensacionalista passa a valer mais do que a real veracidade e importância do fato.

No padrão de Inversão da versão do fato, a versão do fato apresentada pelo veículo jornalístico, pelas fontes, passa a ser mais importante do que o próprio fato. A imprensa é capaz de sustentar versões mesmo que os fatos verídicos as desmintam, assim é perpetuada uma obstrução dos fatos de maneira que não se observe, nem se divulgue a realidade. Perseu Abramo apresenta dos tipos de extremos nessa situação, o frasismo e o oficialismo.

No frasismo, ocorre o abuso da utilização de frases ou pedaços de frases sobre uma realidade para a substituir a realidade, acoplado à ocultação, fragmentação, seleção, descontextualização, etc (ABRAMO, 1988). Um fato comum é a publicação de frases selecionadas nos órgãos de imprensa, a idéia do Perseu Abramo é que seria uma manipulação levada a seus limites, assim, de maneira mecânica, a mídia impressa difunde a sua opinião.

O extremo desse tipo inversão é o oficialismo, a versão ganha caráter de fonte oficial não apenas de autoridades do Estado ou do governo, mas de diversos setores da sociedade, a autoridade mais confiável é a do próprio veículo jornalístico, que aparece no lugar dos fatos, sejam estes acontecimentos da política nacional ou internacional, ou não.
Há ainda, a inversão da opinião pela informação, na qual o veículo apresenta a opinião no lugar da informação (ABRAMO, 1988). Dessa maneira, o jornal vai fazer com que a opinião pública acate automaticamente a opinião do veículo jornalístico impresso sobre qualquer fato publicado.

No padrão da Indução, o leitor é induzido a ver o mundo não como ele é, mas sim o resultado final de manipulação dos vários órgãos de comunicação com os quais ele tem contato (ABRAMO, 1988). O leitor só vai receber em casa um produto final repleto de idéias trazidas de diversas fontes, no processo de produção da notícia.

Os leitores, no entanto, ao perderem o conhecimento da realidade por quase sua totalidade, adquirem uma informação já manipulada com várias opiniões implícitas nas matérias no lugar das informações no intuito de se formar opinião sobre algo e sem certificar se aquela informação é verídica ou não.

Após acontecer a substituição do juízo de valor pelo juízo da realidade, acaba-se deixando seqüelas no leitor, as quais se originam da imposição de valores distantes do real como verdades irrefutáveis, como a construção de uma sociedade, cuja opinião pública não assuma posição sobre o que é ou o que já foi publicado.

Perseu Abramo apresenta também uma avaliação sobre a objetividade e a subjetividade do jornalismo. Primeiramente, o autor diferencia o conceito de objetividade de outros conceitos a este relacionados, como neutralidade, imparcialidade, isenção e a honestidade. Segundo o autor, estas palavras se situam no campo de ação, dizem respeito a critérios do fazer, do agir, do ser, e referem-se mais a categorias de comportamento moral. (ABRAMO, 1988).

Abramo diz também que se a objetividade absoluta não existe, ser subjetivo é então, tentar obter uma objetividade relativa. Portanto, não existiria nenhuma possibilidade de se obter a objetividade.

O conhecimento da realidade passa a ser mais objetivo quanto mais o sujeito observador não se prende a aparências (ABRAMO, 1988). A análise da realidade não se dá de maneira limitada apenas a analisar um fato particular, e sim obter o conhecimento sobre todas as interconexões que envolvem determinado acontecimento. Por de meio uma análise geral, é possível se ver os dois lados da situação, com os seus antecedentes e conseqüências.
Normalmente, quando se busca uma análise da objetividade, não é apontada a questão de como seria possível um jornalismo com objetividade. Neste ponto, Perseu Abramo, faz-nos compreender porque os empresários da comunicação manipulam e distorcem a realidade.

Perseu Abramo explica haver duas vertentes para a explicação do fenômeno e a possibilidade de estarem corretas: Uma diz que o anunciante impõe que o empresário da comunicação manipule e distorça as informações, a outra é que a própria ambição do lucro do próprio empresário da comunicação é o fator determinante da manipulação. Abramo classifica como mais aceitável a definição de que os veículos jornalísticos hoje são novos órgãos de poder. (ABRAMO, 1988).

Ainda em Bourdieu, em seu livro Sobre a Televisão, o tipo de violência que a televisão exerce sobre a opinião pública, é uma violência simbólica que se exerce com a cumplicidade tácita dos que sofrem e também, dos que a exercem, na medida uns e outros são inconscientes de exercê-la ou de sofrê-la. (BOURDIEU, Pierre, Sobre a Televisão, pg, 22, 1997a). Os jornalistas tanto manipulam quanto também são manipulados e inconscientes dessa manipulação.

E essa violência ocorre quanto se é apresentado principalmente pelas notícias de variedades, em seu caráter sensacionalista, que exploram o sexo, o sangue, o drama. Atualmente, essas práticas são conhecidas em programas da TV brasileira como o Pânico na TV, Ratinho, além dos demais tipos de talks shows, no intuito de se ocultar um debate mais sério sobre temas como governo federal, a segurança, a desigualdade social, entre outros.

Pierre Bourdieu aponta o que Patrick Champagne chama de fenômenos de subúrbio, em que a mídia seleciona nessa realidade particular um aspecto inteiramente particular, em função das categorias de percepção que lhe é própria. É organizado o percebido, determinando o que se vê e o que não se vê.

Bourdieu afirma que, na “circulação circular da informação”, os produtos jornalísticos são mais homogêneos do que parecem, além do mais, as diferenças evidentes escondem semelhanças profundas ligadas às restrições impostas pelas fontes e por vários mecanismos, dos quais o mais importante é a lógica da concorrência (BOURDIEU, Pierre, Sobre a Televisão, pg, 31, 1997b). Assim, o monopólio se estrutura e a concorrência ganha mais diversidade. Logo, a competição na área de jornalismo passa a exercer grande influência nas atividades dos jornalistas. É comum, por exemplo, encontrarmos nas bancas vários jornais com as mesmas manchetes e matérias, o que prejudica o acesso do leitor a diferentes pontos de vista sobre os diferentes fatos.

No mundo globalizado atual, a manipulação passa a ser então imprescindível para a manutenção deste poder de atuar como órgão político. Assim, os veículos jornalísticos procuram atuar como partidos políticos, menosprezando, muitas vezes, o papel do Estado e negligenciando o poder da opinião pública de impor as suas necessidades.

O mundo capitalista vem se desenvolvendo sob essa lógica de controle, em que é cada vez mais é comum esse tipo de prática. A diminuir-se a importância do Estado enquanto nação cria-se mecanismos que dificulta cada vez mais o conhecimento e a organização política da sociedade.

Célio Azevedo é jornalista.

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